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segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Esquinas

Era só mais uma mulher,
sorrateira como todas as outras;
derradeira como só ousaria ser Capitu.

Deitou-se com seu vestido azul
e envolveu-me em tramas ocas
fazendo questão de ser uma qualquer.

Das pétalas de bem-me-quer / mal-me-quer
fez Maná para tantas bocas
- quantas foram abertas por meu exu?

Morri mil vezes como um pio
- brinquedo velho nestas mãos loucas.
Terás logo outro moribundo para moer.

C.C.J.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Lua nova demais

Em mais uma produção tirada da Bienal, coloco abaixo o áudio de Elisa Lucinda recitando "Lua nova demais", de sua autoria. É interessante perceber como ela fala de coisas tão atuais de maneira tão bonita. Nem todo mundo tem o dom de ver poesia no cotidiano...


Dorme tensa a pequena
sozinha como que suspensa no céu
Vira mulher sem saber
sem brinco, sem pulseira, sem anel
sem espelho, sem conselho, laço de cabelo, bambolê
Sem mãe perto,
sem pai certo
sem cama certa,
sem coberta,
vira mulher com medo,
vira mulher sempre cedo.

Menina de enredo triste,
dedo em riste,
contra o que não sabe
quanto ao que ninguém lhe disse.
A malandragem, a molequice
se misturam aos peitinhos novos
furando a roupa de garoto que lhe dão
dentro da qual mestruará
sempre com a mesma calcinha,
sem absorvente, sem escova de dente,
sem pano quente, sem O B.
Tudo é nojo, medo,
misturação de “cadês.”

E a cólica,
a dor de cabeça,
é sempre a mesma merda,
a mesma dor,
de não ter colo,
parquepracinha,
penteadeira,
pátria.
Ela lua pequenininhanão tem batom, planeta, caneta,
diário, hemisfério,
Sem entender seu mistério,
ela luta até dormir
mas é menina ainda;
chupa o dedo
E tem medo
de ser estuprada
pêlos bêbados mendigos do Aterro
tem medo de ser machucada, medo.
Depois mestrua e muda de medo
o de ser engravidada, emprenhada,
na noite do mesmo Aterro.
Tem medo do pai desse filho ser preso,
tem medo, medo
Ela que nunca pode ser ela direito,
ela que nem ensaiou o jeito com a boneca
vai ter que ser mãe depressa na calçada
ter filho sem pensar, ter filho por azar
ser mãe e vítima
Ter filho pra doer,
pra bater,
pra abandonar.

Se dorme, dorme nada,
é o corpo que se larga, que se rende
ao cansaço da fome, da miséria,
da mágoa deslavada
dorme de boca fechada,
olhos abertos,
vagina trancada.
Ser ela assim na rua
é estar sempre por ser atropelada
pelo pau sem dono
dos outros meninos-homens sofridos,
do louco varrido,
pela polícia mascarada.

Fosse ela cuidada,
tivesse abrigo onde dormir,
caminho onde ir,
roupa lavada, escola, manicure, máquina de costura, bordado,
pintura, teatro, abraço, casaco de lã
podia borralheira
acordar um diacidadã.
Sonha quem cante pra ela:
“Se essa Lua, Se essa Lua fosse minha...”
Sonha em ser amada,
ter Natal, filhos felizes,
marido, vestido,
pagode sábado no quintal.

Sonha e acorda mal
porque menina na rua,
é muito nova
é lua pequena demais
é ser só cratera, só buracos,
sem pele, desprotegida, destratada
pela vida crua
É estar sozinha, cheia de perguntas
sem resposta
sempre exposta, pobre lua
É ser menina-mulher com frio
mas sempre nua.

(Poema encomenda,1995)

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Viagem II (Suburbano coração)

Califórnia, Cuba, Costa Rica,

Panamá, Honduras, Guatemala,

Quito, Santiago, Montevidéu.

E ainda faltam tantos degraus para chegar à Igreja da Penha.


C.C.J

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Viagem I (Suburbano coração)

Passeando por Roma, Bruxelas,

Paris, Londres e Nova Iorque,

acabei batendo perna em Bonsucesso.

C.C.J.

sábado, 15 de agosto de 2009

O outro

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o outro

Adriana Calcanhotto e Mário de Sá Carneiro

domingo, 2 de agosto de 2009

A resposta

O que somos, além de cansados?

O que somos, além de ambição?

O que somos, além de dopados?

O que somos, além de ilusão?


Oque somos, além de narcisos?

O que somos, além de rancor?

O que somos, além de indecisos?

O que somos, além da tua dor?


O que somos foi fruto da sorte?

O que somos, a marca, a lembrança?

O que somos, a vida e a morte?

O que somos, amarga vingança?


O que somos, além de mentira?

O que somos, além do amor?

E sem ele o moinho não gira,

Imaginário que move o motor.


Bruno Marinho