sábado, 21 de novembro de 2009

Sem título IV

Deitou-me na cama como se eu fosse única. Não foi delicado, nem doce. Mas eu me senti ali, inteira, a mulher que eu deveria ser. A mulher que eu queria ser naquele instante.

Meus braços tatearam os lençóis como o afogado que busca a superfície. A pequenez das quatro paredes transbordava em mim feito uma tarde calorenta de dezembro praiano. Eu suava.

Cega, fui descobrindo pedaços de corpos a minha volta, eram pelos, pés, coxas, dedos, mãos, paus, bucetas, pescoços, seios. Senti-me ilhada. Deixei-me.

O toque daquela língua na minha pele, multiplicada em tantas, às vezes macias, às vezes ásperas, sempre vorazes. O mundo parecia acabar entre minhas pernas, na minha boca. E como eu queria!

Eu sabia quem me levara até lá, mas não sabia a quem ele me entregara. Pensando assim, era uma insanidade. Mas o fio da meada escapou em um suspiro seco quando aquele pau entrou em mim. Entreguei-me.

Aquela cama era uma mesa preparada para um banquete e fui servida como o prato principal. Eu nem sei quantos eram, homens, mulheres, tantos, em um tipo de ritual.

Não retiraram a venda, nem fiz questão de tirar. Deixei-me ser manipulada pelas suas vontades e, inconscientemente, fui tornando-as minhas. A nascente do meu desejo eram suas ordens.

Mãos e toques de diversas texturas e tensões sobre o meu corpo; paus e seios de vários tamanhos e gostos na minha boca; tantas formas de me possuir...

Eu fui sendo dele, dela, deles, delas e de todos como nunca fui de ninguém, como nem sequer pertenci a mim. E o universo reverberava dentro de mim em um novo big bang!

Devem ter se passado horas - poderiam ser dias! Era saliva, suor, sangue, gozo, a vida que envolvia meu corpo agora solitário naquelas quatro paredes. Talvez elas nem existam.

C.C.J.

sábado, 14 de novembro de 2009

Sem título III

Foi só um pesadelo! Que agonia aquilo vermelho nas minhas mãos, nossa! Esse maldito calor, culpa dele! Fazia tempo que eu não tinha um pesadelo, haha, coisa de criança. Como era aquele mesmo? Era uma queda, não era? Algo assim. Que seja.

Agora não vou conseguir dormir de novo. Que inferno! Puta que o pariu, era só o que faltava! Por que justo hoje esqueci de colocar a merda da garrafa de água na geladeira? Porra, tinha que ser hoje?! Quer saber, é melhor dar uma volta, pegar um ar. Puta que pariu!

Engraçado como a gente tem medo da rua. Essa hora que é bom, tudo vazio, tão silencioso, o céu parece pintura de outros tempos. Talvez aqui olhando pra lua eu veja Capella, quem sabe mais à direita esteja Marte e aqui atrás Hadar, vamos ver... Quanta bobagem a nossa cabeça consegue guardar!

É só andar mais um pouco que o sono volta. A vizinhança é tão melhor assim. Na hora de apresentar a casa aos interessados eu acho que só vou marcar horário de madrugada, haha! Não tem trânsito, outros compromissos para apressar nem qualquer outro tipo de problema.

Que barulho foi esse? Eu ouvi... Acho que... Hmmf, essa queimação na boca do estômago... Estranho, as pernas tão bambas... Que merda é essa, porra?!?! Caralho, tá doendo! Porra, não tô aguentando essa dor na barriga. Isso... Isso... Isso é sangue! Porra, que porra é essa?

Socorro! Alguém! Sangue, puta que o pariu, tem sangue pra caralho. Socorro! Porra, alguém... Que que foi isso, cacete, tá doendo! Ah!!! Socorro! Ah!!! Esse chão tá me queimando, puta merda... Minhas mãos, não consigo mexer os braços, nada. Caralho! Ah!!!

Quem é você? Me ajuda aqui, porra, liga pro hospital! Tá rindo? Que porra é essa, tá rindo, filho da puta? Isso é uma arma... Filho da puta, atirou em mim, filho da puta?!?! Tá maluco, porra?!?! Por que, porra? Por que atirou em mim, seu merda?

Parou de rir, é? Chama alguém, chama alguém! Ah!!! Eu não vou te denunciar, nem vi tua cara. Vai, liga pra alguém, qualquer um. Vai, filho da puta! Ah!!! Porra, não foge, desgraçado, para de correr, seu merda, liga pra ambulância...

Não acredito! Nem vi esse merda chegar... Porra, não acredito que vou morrer aqui... Caralho, eu não queria sentir dor! Porra, um tiro... Puta que pariu! Ah!!! Socorro! Alguém... Daqui a pouco amanhece...

C.C.J.

sábado, 7 de novembro de 2009

Cenas

A uma atriz

Poderia ser uma tarde de setembro ou uma manhã de março. Talvez à beira da Lagoa ou na calçada em Madureira. Eu a acompanho com meus olhos assustados e meus passos desajustados.

Não, ela não me percebe, mesmo que eu não faça esforço em me esconder. Não que ela me esnobe. São caminhos diferentes, são destinos distantes. São duas vidas sem acasos em comum.

Chamam-na atriz, mas prefiro mulher. Vestiu o corpo negro com diversos nomes e pintou a boca com as mais variadas verdades deste tempo e de outrora. Amou, perdeu, ganhou, foi traída e segue.

Eu queria um lugar em sua próxima história, mesmo de figurante. Mas não sei interpretar. Pensei em seguir em frente, mas o filme só faz sentido com ela no papel principal.

Fruta saborosa, desenha-se como a mulher ideal dos meus sonhos de artista. Rabisquei dois ou três versos para tentar me aproximar. O mar, sincero, apagou antes de você passar.

Não se preocupe, caso venha a tropeçar nesta mensagem engarrafada atirada ao léu. Não estarei à espreita na próxima cena, nem escreverei a história de nós dois.

Se me derramo no sublime dos seus olhos é porque seu sorriso caymmiano passeia nas ondas coloridas destas estações indefinidas a qual a cidade sempre arruma um jeito de se acostumar.

Eu nunca sei se é verão ou inverno até a barra do seu vestido balançar simples como o vermelho alaranjado da sinfonia atlântica. Estou a seus pés, não estou no chão.

C.C.J.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Paixão de Ler

Na próxima quinta-feira, 05, terá início a 17ª edição do evento ‘Paixão de Ler’ com o tema Literatura. Vários nomes da literatura brasileira, entre eles o poeta Ferreira Gullar, darão palestras e participarão de debates e leituras com o objetivo de diminuir a distância entre livros e pessoas.

Abaixo reproduzo as informações gerais do projeto, além de dar o link da programação completa.


PAIXÃO DE LER CHEGA À 17ª EDIÇÃO COM MAIS DE 100 ATRAÇÕES

Uma onda literária tomará conta da cidade do Rio de Janeiro nos próximos dias. E nesse mar de histórias, prosas e versos, há lugar para a arte e o saber de Marina Colassanti, Antônio Cícero, Adriana Falcão, Antônio Torres, Ferreira Gullar, Alcione Araújo, Bia Bedran, José Mauro Brant, Paulo Bi, Zé Zuca e muitos outros que integram a programação do Paixão de Ler - uma iniciativa da Coordenação de Livro e Leitura, da Secretaria Municipal de Cultura.

O Paixão de Ler terá sua cerimônia de abertura no dia 5 de novembro às 17h30 na Fundação Biblioteca Nacional (palácio Eliseu Visconti), com palestra de José Castello e Bartolomeu Campos de Queirós. Em sua 17ª edição a campanha tem o tema Paixão de Ler Literatura - escolhido para que a prática da leitura literária seja o foco das ações. "Queremos mobilizar toda a cidade para o movimento por um Rio Literário" conta Lêda Fonseca, Coordenadora do Livro e Leitura da Prefeitura do Rio.

Para isso, a programação deste ano contempla a diversidade - não só pela vastidão de atrações que são mais de 100, mas também pelos espaços onde estes eventos serão realizados - como a Academia Brasileira de Letras, Biblioteca Nacional, Bibliotecas Populares, Quinta da Boavista e quadra da GRES Império Serrano.


Mais de 100 atrações em torno da Paixão de Ler "Nossa programação reúne atrações para crianças e adultos, artísticas e de formação. Na quadra do Império Serrano, por exemplo, faremos apresentações de espetáculos com Contadores de Histórias para crianças. Já na Biblioteca Popular Municipal Machado de Assis, em Botafogo, acontecerão debates sobre temas como "Por que ler poesia" e "Ficções do Rio". E na sede da Prefeitura (na Cidade Nova) teremos atividades como troca-troca de livros, pílulas poéticas e uma intervenção líterogestual com Jiddu Saldanha" explica Leda Fonseca, que destaca ainda a homenagem ao Acadêmico Antonio Olinto no dia 9 de novembro às 17h30 na Associação Brasileira de Letras
com a presença do presidente da ABL - Cícero Sandroni.

A campanha Paixão de Ler conta também com a parceria de diversas Instituições na realização de atividades voltadas para a promoção do livro e da leitura, tais como o SESC Rio e a Campanha Natal sem fome dos Sonhos da Ação da Cidadania, que no dia 7 de novembro às 19h no Centro Municipal Luiz Gonzaga de tradições nordestinas (Feira de São Cristóvão)
realiza a cerimônia da entrega do acervo de livros para criação do Centro de Memória do Migrante Nordestino Campanha e com apresentação artística do poeta Mano Melo.

Site Oficial: http://www.rio.rj.gov.br/cultura/

Programação completa: http://www.paixaodeler2009.blogspot.com/

sábado, 31 de outubro de 2009

Reinações de Narizinho

O vídeo abaixo trás o ator Paulo Betty lendo o capítulo “A pílula falante”, do livro Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.

Esse livro, de 1931, é composto de pequenas histórias, previamente publicadas, que foram divididas em capítulos. Nesse, especificamente, ele explica como a boneca Emília começou a falar.

Paulo Betty conseguiu o tom certo na leitura, o que fez desse um dos pontos altos da Bienal. Vale conferir...

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Musa híbrida

As palavras não fazem mais sentido agora. E não são só os adjetivos que se tornam bijuterias perto dela, mas mesmo os substantivos não dão conta deste arrebatamento!

A pela quente, as pernas envolventes, a boca estonteante, aqueles olhos verdes de maré cheia... E que bunda. Eu sou todo arrepio e tesão diante da musa.

Musa híbrida, musa negra, musa brasileira, musa - escultura que resume qualquer definição e expande qualquer sensação de beleza.

Eu disse, as palavras não dão conta. Creio mesmo que o cotidiano envergonha-se diariamente de não poder oferecer cenário melhor para acomodá-la.

Passeia entre devaneios de insanos e cafajestes, deixando no ar o canto que faz o mais bruto marinheiro saber o que é paixão.

Sabes, onça. E também sei. Devoras com este sorriso aberto (ou é a fatalidade da sua tristeza) qualquer defesa mundana. És fantástica, seja isso bom ou ruim. Eu sei.

C.C.J.

domingo, 18 de outubro de 2009

Entrevista com Paulo José

*Escrito por Rafael Oliveira

Antes da entrevista, Paulo José pediu tempo para tirar uma foto com um fã mirim. Aos 72 anos, o próprio ator e diretor ainda mantém um pouco da curiosidade e entusiasmo infantis dentro de si. Curador do projeto Livro em Cena, sucesso de público da Bienal que levou atores até o palco para ler obras de escritores consagrados, Paulo precisou reler clássicos da literatura brasileira para a escolha dos trabalhos que seriam contemplados. Neste processo de resgate, reencontrou a infância: “'Reinações de Narizinho' (de Monteiro Lobato) é saborosíssimo”, admitiu. Abaixo, ele fala mais sobre essas redescobertas, a curadoria do Livro em Cena e critica os hábitos de leitura do brasileiro.

Como você avalia o Livro em Cena?
Deu muito certo. Houve uma adesão maciça do público e dos atores. Todos os convites que eu fiz foram aceitos. Houve até quem lamentou por não estar aqui, como a Patrícia Pillar, que está viajando pelo país para divulgar seu filme, e as Fernandas (Montenegro e Torres), que estão em cartaz com suas respectivas peças.

Como surgiu o projeto?
A ideia foi do Robert Feith (vice-presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), entidade que promove a Bienal). Ele queria ampliar as atrações para evitar a estagnação. Inicialmente ofereceu o projeto para a Monique Gardemberg (cineasta), que me recomendou para ser o curador devido ao meu conhecimento em literatura brasileira.

Quais foram os critérios para a escolha dos atores e dos escritores homenageados?
Procurei chamar grandes atores que fossem reconhecidos não apenas pela TV, mas também pelo teatro, pois era indispensável que soubessem ler bem. Já para decidir os autores eu primeiro escolhi Machado (de Assis). A partir dele, fechei em mais 19 nomes. Como só entrariam 12, fui optando por aqueles que me trariam menos problemas com a questão dos direitos autorais.

O evento foi sucesso de público todos os dias. Como você enxerga a relação do brasileiro com a literatura?
Ele lê muito pouco. Aqui no Brasil a biblioteca não faz parte da casa das pessoas. E o pior é que ninguém acha isso estranho. Para mim ela deveria ser tão indispensável quanto um fogão. Com o sucesso da Bienal e do livro em cena, espero que alguma luz se acenda na cabeça dessas pessoas.

O que está lendo atualmente?
Tenho relido muitas coisas. Depois de certa idade você começa a reler aquilo que leu quando ainda era cedo demais para entender (Paulo faz uma pausa) ou quando já era tarde demais.
Com o quê, por exemplo? (neste momento, ele se levanta e mostra a pilha de livros que carrega consigo. Entre as obras estão "Literatura Brasileira: das origens aos nossos dias", de José de Nicola; "A hora da estrela", de Clarice Lispector e "Cidades Inventadas", de Ferreira Gullar)
Muitas coisas. Como além de ser curador do projeto eu também leio trechos no palco, precisei reler todos os autores que foram contemplados. Um dos que mais têm despertado minha atenção é o Ferreira Gullar (e se propõe a ler em voz alta "Subversiva", de Ferreira Gullar, que você assiste no vídeo abaixo). Também tenho lido Monteiro Lobato. Estou impressionado com "Reinações de Narizinho". Era o livro da minha infância. Estou enxergando ali o que eu não era capaz de ver quando li pela primeira vez, ainda criança. É saborosíssimo.

*Rafael Oliveira faz parte do programa de treinamento do O Globo e fez essa entrevista no último dia da Bienal para o blog do Prosa e Verso.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Esquinas

Era só mais uma mulher,
sorrateira como todas as outras;
derradeira como só ousaria ser Capitu.

Deitou-se com seu vestido azul
e envolveu-me em tramas ocas
fazendo questão de ser uma qualquer.

Das pétalas de bem-me-quer / mal-me-quer
fez Maná para tantas bocas
- quantas foram abertas por meu exu?

Morri mil vezes como um pio
- brinquedo velho nestas mãos loucas.
Terás logo outro moribundo para moer.

C.C.J.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Lua nova demais

Em mais uma produção tirada da Bienal, coloco abaixo o áudio de Elisa Lucinda recitando "Lua nova demais", de sua autoria. É interessante perceber como ela fala de coisas tão atuais de maneira tão bonita. Nem todo mundo tem o dom de ver poesia no cotidiano...


Dorme tensa a pequena
sozinha como que suspensa no céu
Vira mulher sem saber
sem brinco, sem pulseira, sem anel
sem espelho, sem conselho, laço de cabelo, bambolê
Sem mãe perto,
sem pai certo
sem cama certa,
sem coberta,
vira mulher com medo,
vira mulher sempre cedo.

Menina de enredo triste,
dedo em riste,
contra o que não sabe
quanto ao que ninguém lhe disse.
A malandragem, a molequice
se misturam aos peitinhos novos
furando a roupa de garoto que lhe dão
dentro da qual mestruará
sempre com a mesma calcinha,
sem absorvente, sem escova de dente,
sem pano quente, sem O B.
Tudo é nojo, medo,
misturação de “cadês.”

E a cólica,
a dor de cabeça,
é sempre a mesma merda,
a mesma dor,
de não ter colo,
parquepracinha,
penteadeira,
pátria.
Ela lua pequenininhanão tem batom, planeta, caneta,
diário, hemisfério,
Sem entender seu mistério,
ela luta até dormir
mas é menina ainda;
chupa o dedo
E tem medo
de ser estuprada
pêlos bêbados mendigos do Aterro
tem medo de ser machucada, medo.
Depois mestrua e muda de medo
o de ser engravidada, emprenhada,
na noite do mesmo Aterro.
Tem medo do pai desse filho ser preso,
tem medo, medo
Ela que nunca pode ser ela direito,
ela que nem ensaiou o jeito com a boneca
vai ter que ser mãe depressa na calçada
ter filho sem pensar, ter filho por azar
ser mãe e vítima
Ter filho pra doer,
pra bater,
pra abandonar.

Se dorme, dorme nada,
é o corpo que se larga, que se rende
ao cansaço da fome, da miséria,
da mágoa deslavada
dorme de boca fechada,
olhos abertos,
vagina trancada.
Ser ela assim na rua
é estar sempre por ser atropelada
pelo pau sem dono
dos outros meninos-homens sofridos,
do louco varrido,
pela polícia mascarada.

Fosse ela cuidada,
tivesse abrigo onde dormir,
caminho onde ir,
roupa lavada, escola, manicure, máquina de costura, bordado,
pintura, teatro, abraço, casaco de lã
podia borralheira
acordar um diacidadã.
Sonha quem cante pra ela:
“Se essa Lua, Se essa Lua fosse minha...”
Sonha em ser amada,
ter Natal, filhos felizes,
marido, vestido,
pagode sábado no quintal.

Sonha e acorda mal
porque menina na rua,
é muito nova
é lua pequena demais
é ser só cratera, só buracos,
sem pele, desprotegida, destratada
pela vida crua
É estar sozinha, cheia de perguntas
sem resposta
sempre exposta, pobre lua
É ser menina-mulher com frio
mas sempre nua.

(Poema encomenda,1995)

domingo, 4 de outubro de 2009

Louco por você

Girei a maçaneta da porta branca do meu apartamento como faço todo dia, mas não consegui completar o movimento. Como uma interna bomba de efeito retardado os olhos daquela estranha na banca de jornais venceram minha rotina. Talvez fossem verdes ou cor de mel, na verdade eu não prestei muita atenção nisso. O impactante era o olhar - sabe aquela pessoa que parece ter certeza sobre todos os passos? Será que eu fiquei encarando? Será que eu deveria voltar até lá? Mas por que ela ainda estaria lá? Não sei...

"Tell me why / I love you like I do / Tell me who / can stop my heart as much as you"

É um homem meio esquisitão... Olha quem fala, até parece que a minha família é normal. Na verdade ele nem é estranho, é só desajeitado. E tem o seu charme. Ah, lá vai você pensando nisso outra vez! Eu não vou deixar você cair nessa novamente, não, mocinha. Já não basta o último fulano? Está na hora de montar o seu escritório, é nisso que você tem pensar, na sua vida, no seu trabalho. Será que eu fiquei encarando? Talvez eu deva voltar até a banca, ver se ele ainda está lá, não me custa nada...

"Tell me all your secrets, and I'll tell you most of mine, / They say nobody's perfect, well, thats really true this time"

Acho que a gente consegue. O apartamento é confortável, barato e bom para nós dois e para o cachorro. Vamos dividir a sala para ficar perfeito: suas tralhas do escritório ficam alí perto da cozinha e os meus aparelhos de edição deste lado aqui, na janela, que tal? Não, não, não, meu anjo, eu não falei tralhas? Falei? Mas não foi tralha que eu quis dizer, eu disse tralha só que com carinho, é diferente. É verdade, vem cá... Agora que tal colocar este sofá do outro lado da sala? Não? Tudo bem, foi só uma sugestão mesmo. Pensa um pouco melhor, olha... Não? Tudo bem.

"I don't have the answers, / I don't have a plan / All I have is you, so darling, help me understand"

Eu acho que você deve aceitar sim, vai ser bom para você, que vai ter algo fixo, e para nós dois também. Os horários a gente acerta, olha: quando eu estiver saindo para trabalhar de manhã e você chegando, a gente se vê; quando você for sair, eu vou estar chegando e a gente se vê também. A gente aguenta por algum tempo e vê como fica. Vai ser bom para você, não era a chance que você queria tanto? Deixa de ser bobo, ele também vai se adaptar bem, não vai? (Latido) Viu? Vai dar certo sim, como sempre.

"(What we do) You can whisper in my ear / (Where we go) Who knows what happens after here"

De onde você tirou a ideia de que meu primo e sua irmã poderiam ter algum tipo de relacionamento além de serem meu primo e sua irmã?! Não tem cabimento. Me passa o sal, por favor? Daqui a pouco nossas famílias vão estar instaladas aqui, este apartamento virará um campo de guerra. Bobagem? Então, tá. Me passa o arroz, sim? (Telefone) Quem era? Vai, quem era? Ahá! Está bem, não vou dizer. Me passa as batatas, por favor? Está ótimo o jantar, sabia? Você sabia? Porque eu sabia, eu sabia! Me passa o sal de novo, por favor?

Let's take each other's hand as we jump / in to the Final Frontier

Eu preciso te dizer uma coisa. Sim, é boa, eu acho. Por que, você acha que não é? Deixa eu falar. Eu acho que a gente deveria tentar. Como assim tentar o que? Há quanto tempo estamos juntos? E a nossa relação é boa, não é? Temos uma vida boa, não é? Então... Não, não é ter outro cachorro! Eu quero ter um filho. Você está bem? Você não quer? Fala alguma coisa. Claro que é muita responsabilidade, mas estamos preparados. Olha só, nosso cachorro está bem, não é? Temos bons empregos, um apartamento bom e nos amamos, P.

I'm mad about you baby, / Mad About You...

Uma pena que a banca de jornal onde nos encontramos pegou fogo, queria que nossa filha conhecesse o lugar onde os pais dela se conheceram. Aliás, o que você estava fazendo lá naquele dia, você nem perto morava? Eu também não lembro, só sei que era tarde, estava frio e eu não sei porque estamos tendo esta conversa agora... Tem certeza que é a minha vez de ir ver o bebê? Está certo, está certo, já estou indo, pode voltar a dormir. Lá vamos nós, neném. Isso, isso, eu amo você, como amo sua mãe. Está ouvindo, J.?

C.C.J.

Aqui jaz

Ei, vamos entrando, claro! Sente-se ao meu lado. Há quanto tempo não nos vemos? Ah, não importa... Fale-me como estão as coisas com você. Aliás, e aquela ideia, o projeto do qual você sempre falava...

Não, nunca pronunciei estas palavras. Olho para o cômodo e são apenas quatro paredes, uma porta e uma janela guardando uma espécie de cena montada para um filme de enredo barato e custos baixos, o meu monólogo.

Eu até ligaria para você - quem? -, mas me falta o número. É, talvez você só tenha esquecido de me passar no nosso último encontro. Quando foi mesmo? Acho que estou tendo um pequeno problema de memória.

Porque esta casa não tem espelhos e inconscientemente eu devo ter feito isso para me proteger quando o futuro chegasse. Eu já estava prevendo que ele bateria na porta e já sabia o que ele traria para mim.

Sim, sim, sim... Nunca usei muito esta palavra. Tantos atalhos pensei ter pego vida adentro e não devo ter prestado atenção nos diversos sinais - dizem que há esse tipo de contato divino conosco. Não que tenham me falado nada, apenas ouvi por aí.

Eu fico pensando nisso tudo, nascer, crescer, viver, morrer e os meus advérbios, o modo como conjugo os verbos da minha existência são sempre uma forma de precaução, uma pré-defesa no julgamento que faço de mim.

E sabe o que é? Não há nada. Substancialmente nada. Esses poucos móveis não são herança, e sim obstáculos para os meus passos aqui dentro deste cubículo: coração, pulmões, rins, estômago. Estas artérias não me levam a lugar nenhum?

Ninguém. Fico pensando no enterro. Quem vai dar por falta de mim e despachar o meu corpo. O mau cheiro me denunciará? Velório, enterro, quem cuidará disso? Terei um? Porque eu estava pensando se não seria bom ser cremado...

Dia desses escrevi algumas frases soltas em uma folha já amarelada. Poderiam ser colocadas na minha lápide. É mórbido? Talvez, mas enquanto estou aqui apenas esperando este momento... Não há ninguém para notar.. Aqui jaz.

C.C.J.

domingo, 27 de setembro de 2009

Monteiro Lobato

Mais um post do Livro em Cena. Agora é a vez de Monteiro Lobato, na voz de Paulo Betti. O trecho que o ator lê no vídeo é o capítulo “Pílula falante”, do livro Reinações de Narizinho. Com certeza, um dos melhores acontecimentos do último sábado da Bienal...

domingo, 20 de setembro de 2009

Mário Quintana - Parte 02

*A qualidade da imagem no vídeo não ficou muito boa, mas o som ficou bem legal, vale a pena conferir.

Agora é a vez de Paulo José, curador do Livro em Cena, declamar Cocktail Party, de Mário Quintana. Ele e Elisa Lucinda dividiram o palco, no dia 12 de setembro, no primeiro ano do espaço na Bienal 2009.





Cocktail Party

Não tenho vergonha de dizer que estou triste
Não dessa tristesa ignominiosa dos que, em vez
de se matarem, fazem poemas:
Estou triste porque vocês são burros e feios
E não morrem nunca...
Minha alma assenta-se no cordão da calçada
E chora,
Olhando as poças barrentas que a chuva deixou.
Eu sigo adiante. Misturo-me a vocês. Acho vocês uns amores.
Na minha cara há um vasto sorriso pintado a vermelhão.

E trocamos brindes,
Acreditamos em tudo o que vem nos jornais.
Somos democratas e escravocratas.
Nossas almas? Sei lá!
Mas como são belos os filmes coloridos!
(ainda mais os de assuntos bíblicos...)
desde o crepúsculo
E, quando a primeira estrelinha ia refletir-se
em todas as poças dágua,
Acenderam-se de súbito os postes de iluminação!

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Mario Quintana - Parte 01

Depois de quase uma semana, eis que posto aqui a primeira parte do Livro em Cena, com Elisa Lucinda e Paulo José, na Bienal 2009. Não há muito o que dizer nem do autor homenageado nem dos que prestam a devida homenagem... Espero que gostem de ouvir Elisa Lucinda recitando A poesia é necessária e Coral a moda antiga.

domingo, 13 de setembro de 2009

Renata Giannattasio

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Um causo

Ao amigo F.K.

Você sabe que eu sou uma pessoa pacífica, não é? Não gosto de confusão, muito menos de relar a mão em alguém ou em um animal. Só que eu tenho sangue nas veias, pô! Já te disse, meu lema é: dou um boi para não entrar em uma briga, mas dou uma boiada para não sair.

- Eu sei, eu sei...

Então, tendo isso tudo em mente, você vai me dar razão no acontecido. Até porque tem outra, se tem uma coisa que eu odeio é falsidade e aí você mistura isso com aquele bicho nojento querendo dar uma de jão sem braço pra cima de mim... Não, não...


- A situação acaba chegando a um ponto em que você tem que agir, senão...

Pois é, é isso! E foi como eu estava te dizendo. Eu lá, quieto na minha rede, sossegado. Minha família tem uma fazenda lá pro meio do mato e eu gosto de ficar meio escondido, entre as árvores, vendo a vida passar de olhos fechados, entende?

- Acho que sim, haha.

Tanta desgraça acontecendo no mundo, é bala perdida, é acidente de carro, é uma nova epidemia, é político roubando, chefe ameaçando te despedir, salário que não dá pra pagar as contas no fim do mês... Haja calma para terminar o dia vivo.

- Acho que é por isso que o Dalai Lama vive isolado a maior parte do tempo...

É por isso que eu vou para o meu templo particular, monto a rede entre duas mangueiras altas, a sombra é boa, a brisa agradável. E nessa época do ano não costumam cair mangas na cabeça. O problema é no verão mesmo, aí o templo fica interditado.

- Pelo menos se tem suco fresco à toda hora.

Mas eu estava ali, quieto na minha meditação, quando ouço um barulho, como algo se arrastando sobre as folhas no chão, sabe como é? O som foi ficando mais próximo e eu vi que era uma cobra, nem rea muito grande, nem do tipo venenosa.

- A natureza é um perigo.

Que nada, eu já estava acostumado com aquilo. Era só pegar um pedaço de pau qualquer e jogar o bicho pra longe. Só que a maldita da cobra percebeu que eu a percebi e parou. Sabe o que aquela tripa fez? Tentou fingir que não cobra!

- Porra, era uma cobra ou um camaleão!?


Haha, uma mistura... Não, a safada deu uma de dissimulada, querendo me fazer acreditar que ela não estava ali. Isso eu não aguento. Estava prestes a somente afastar ela de mim, mas não, ela tentou se fazer de dissimulada...

- E você?

Bom, puto da vida, fui obrigado a pegar um galho maior que havia ali perto e acertar em cheio a cabeça da filha da puta. Não ia se fazer de dissimulada para mais ninguém aquela cobra maldita. Ser cobra eu aceito, agora dissimulada...

- Um brinde!

C.C.J.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Museu do Futebol - São Paulo/SP

Renata Giannattasio

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Viagem II (Suburbano coração)

Califórnia, Cuba, Costa Rica,

Panamá, Honduras, Guatemala,

Quito, Santiago, Montevidéu.

E ainda faltam tantos degraus para chegar à Igreja da Penha.


C.C.J

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Viagem I (Suburbano coração)

Passeando por Roma, Bruxelas,

Paris, Londres e Nova Iorque,

acabei batendo perna em Bonsucesso.

C.C.J.